As
molduras dos porta-retratos já estão tão envelhecidas. O cobre desgastado, o
vidro que protege as fotos do ar úmido empoeirado, todo riscado. Já se passaram
décadas e todas essas fotos ainda estão comigo. Todas as fotos das melhores
épocas de minha vida. Não sei nem dizer o que sinto ao vê-las, mas me dá uma
sensação estranha. De algum modo, elas parecem distantes ao mesmo tempo em que
tenho a impressão de que todos aqueles bons momentos impressos nelas
aconteceram ontem. Sinto nostalgia, um aperto forte no coração. Vontade de
chorar e de gritar. Vontade de voltar no tempo, de abraçar todos aqueles que se
foram e de ter minha juventude de volta. Já me disseram uma vez quando era mais
nova que a vida passava rápido demais. Nunca acreditei nisso, sempre achei que
tudo aconteceria num ritmo devagar, nunca chegando a um fim. Mas acontece que
estava errada. O tempo passou mais rápido do que devia, as rugas e cabelos
brancos eventualmente foram aparecendo em mim e de repente tudo que eu conhecia
havia sumido. Tudo se foi subitamente e eu realmente me faço a mesma pergunta
todos os dias, “Eu fui feliz?”, e a resposta vem fácil. Eu fui, mas não soube
como cultivar tudo que colhi durante a vida, perdi tudo rápido demais, não
valorizei do jeito que devia. Agora, é apenas o vazio que predomina dentro de
mim. Como se houvesse um grande precipício entre mim e a felicidade. Todos os
carros, todas as TVs, jóias e roupas que conquistei não fazem a menor
diferença. O que realmente foi a minha verdadeira alegria se foi.
Sob
o caixote do meu piano, estão todas as fotos. Eu e Ross em nosso primeiro
encontro, aparentemente desconfortáveis, mas se acostumando à sensação de estar
próximo um ao outro, se adaptando e lentamente se soltando; Lisa e eu na nossa
primeira festa, totalmente perdidas, com roupas que ninguém jamais usaria,
apenas tentando nos encaixar naquela terrível época da adolescência. Pra falar
a verdade, nunca fomos muito fãs de festas. Em seguida, eu, Lisa, Claire,
Maggie, Daryl e Sam, o famoso grupinho, comendo na lanchonete que ficava na
esquina da escola. Éramos inseparáveis, como carne e osso. Nos amávamos tanto
que até chegávamos a nos odiar. Lembro que eles sempre me apoiavam em todas
minhas ideias loucas, lembro que foram os melhores amigos que já tive. Não faço
ideia de onde eles estão agora. Na quarta foto, eu e meus pais enquanto ainda
eram vivos. Lembro de como nunca os deixava chegarem perto do meu cabelo com
uma escova, de como sempre passeávamos pela praça perto de casa e meu pai me
contava histórias loucas de suas vivências e do jeito que eu dançava quando
eles estavam ao meu redor, até como se fosse um show privado. Sinto falta
deles, como sinto. Eram dois loucos, assim como eu. Nunca fomos muito ordinários,
nunca seguimos nenhum padrão e de vez ou outra aparecíamos de pijamas nas ruas
juntos. Meu mais verdadeiro sorriso sempre foi ao lado dos dois. Que dor no
peito, eles se foram e eu nunca tive a chance de me despedir apropriadamente.
Havia
apenas mais alguns retratos, e logo mais meu antigo álbum de fotos. Fotos de
mim dando aula como professora de história, de mim pintando quadros que ninguém
nunca irá encontrar, eu tocando o meu famoso piano aos sete anos de idade,
cantando no karaokê ao lado de Sam em algum bar qualquer, ganhando um prêmio
pelo meu livro “Escunas e lacunas”... Fiz coisas demais. Creio que experimentei
tudo o que devia ter saboreado, mas de algum jeito não foi o suficiente. Não
durou. Todas as fotos do meu casamento com Ross, do nascimento do nosso filho
que agora vive no exterior, Rick, de repente perderam seu real valor. Eu não as
sinto mais como parte de mim. Acabou. Já não sinto mais nada. Perdi todo o
nexo, todo o rumo. As músicas já não me animam mais, não tem significado nenhum.
Não sei quem sou. Estou tão solitária.
Lembro
de todas as vezes que Ross disse pra mim que tudo iria ficar bem antes de ele
falecer, lembro de todas as vezes que Rick falou pra mim que voltaria todo ano
para me ver mesmo não tendo o feito. De todas as vezes que minha mãe segurou a
minha mão e disse “Minha princesinha, porque você não cala a boca e vai dormir?”
nesse tom irônico que me fazia morrer de rir, de todas as vezes que meu pai me
colocou em seu colo enquanto assistíamos futebol mesmo comigo não entendendo
nada, de todas as vezes que Claire e Maggie faziam penteados insanos no meu
cabelo e de todas as vezes que Daryl riu de mim por nada. A vida é feita de
lembranças, de pequenos momentos simples e reconfortantes. Momentos que te dão
a ideia de lar, de amor e acolhimento. Não acredito que fui tão cega a ponto de
perder tudo por conta do dinheiro que conquistei. Como pude me tornar tão
materialista e mesquinha de uma hora pra outra? Sem sentido. Decepcionei
aqueles que mais amei, joguei no lixo todas as memórias da melhor época da
minha vida. Não culpo Rick por não querer estar com a mãe, não culpo ninguém
que já brigou comigo. Eu mereci. É tão horrível saber que tudo já esteve em
minhas mãos e que eu perdi. Achei que o jogo era outro, entendi errado os
sinais que a vida me deu, segui um caminho de pura ambição e competitividade,
sem nunca olhar pra trás, sempre almejando o primeiro lugar. Eu perdi minha
verdadeira essência no meio dessa longa e confusa jornada e agora é tarde
demais. Tornei-me amarga, constantemente tendo que visitar o hospital por causa
de saúde mental e física terrível. Agora vivo por culpa dos remédios, de toda
essa dosagem de medicina.
Certo
dia, decidi que não valia mais a pena. Os meus momentos já foram. Rick, Ross,
Daryl, Sam, Lisa, Claire, Maggie, mamãe e papai ficaram no meu doce passado. A
vida, - ou até mesmo eu -, matou o sonho que sonhei. Meus olhos nunca estiveram
tão apagados, meu coração nunca bateu de maneira tão fraca. Era a hora de dizer
adeus para mim mesma e para esse mundo. Sentei-me em frente a meu grande e
antigo espelho, penteando meus cabelos com o olhar seguindo o ritmo que a
escova fazia em minhas mechas. Larguei a escova, olhei diretamente para mim, a
pessoa refletida no espelho, aquele monstro que havia me tornado e de modo
lento abri a gaveta ao lado. Peguei a arma. Com as mãos trêmulas e os olhos
molhados, pressionei a arma contra minha cabeça e com um último suspiro, puxei
o gatilho. Sem balas, a munição havia acabado. Ainda assustada do impacto do momento,
me afastei e fui para a sala de estar, coberta por compridos casacos de lã com
suas mangas que enxugavam minhas lágrimas que agora escorriam freneticamente em
meu rosto gelado.
Observei
a sala por horas. Pensei no que havia tentado fazer e não me arrependo, logo
mais tentaria novamente. Os móveis intactos com suas cores mortas, a tinta da
parede descascada e o carpete amarelado, o tic-tac do relógio enferrujado que
me trazia desespero em cada pontada. Fazia tempos em que não cuidava daqui.
Nunca senti esta casa como um lar desde que Ross se foi. Vez ou outra ainda o
sinto aqui, mas logo reparo que é apenas minha loucura. Porque ele gostaria de
estar comigo, afinal? Me descreviam como a mais animada, entusiasmada,
empolgada, criativa e louca. Maggie nunca deixou de acreditar em mim quando
disse pra ela que queria ser escritora. Sam nunca duvidou de mim em nada. Minha
mãe sempre dizia que seria uma estrela algum dia, e, logo depois, corrigia-se
“Me enganei. Você já é uma estrela”, o que sempre me estampava um sorriso na
cara. O que aconteceu comigo? O tempo me envelheceu não apenas fisicamente.
Estou cansada em todos os sentidos.
Estava
me preparando para voltar ao quarto, agora com munição para finalmente
finalizar minha dor, mas de repente, escutei um Ding-dong. Era a campainha. Estranho. Me aproximei da porta,
aflita, tentando observar pela sombra da janela meio-translúcida lateral quem
seria. Era sem dúvidas um homem. Abrindo a porta, me deparo com um senhor com
aproximadamente minha mesma idade, com o olhar amigável. Parecia que o conhecia
há muito tempo, pois possuía um rosto familiar. Depois de alguns segundos,
finalmente me dei conta de quem era.
- Pam? – o homem disse, certificando-se se eu era realmente
quem ele procurava.
- Daryl? – hesitei. Tinha certeza que era ele, meu antigo
amigo. O que ele fazia aqui?
- Pronta pra botar o papo em dia? – disse que sim com a
cabeça, incrédula, enquanto ele entrava em minha casa como quem nunca tivesse
saído de lá. Não fiz nenhuma pergunta sobre o como ele havia conseguido meu
endereço, apenas aproveitei o momento. Era como um milagre. Não sei se merecia,
mas não quero me questionar. Estou recebendo uma segunda chance. Pelo visto,
não é tarde demais para tentar outra vez, para recomeçar. Era hora de construir
novas memórias.
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