Era
a terceira vez naquele mês. A terceira vez que tudo já havia dado errado. Ao
chegar em casa, correu para o quarto, trancou as portas, caiu na cama e chorou,
chorou até não sobrar mais nada. Sentou-se em sua cama, segurando junto a seu
corpo o travesseiro agora molhado que logo em seguida começou a socar, com um
olhar de fúria em seus olhos. Soltando raiva por toda parte, ela estava
devastada. Por mais que ela tentasse, não havia mais nada a ser feito. Cansada
de aguentar as mesmas tensões de casa, decidiu que iria sair para a rua, tomar
um ar fresco. Limpou seus olhos, pegou um casaco e saiu, sem dizer uma única
palavra à seus pais, que nem notaram-na indo embora.
Logo ao sair de
casa, seu olhar mudou. Não porque ela estava melhor, mas sim porque havia
voltado à mesma expressão facial que usava todos os dias para disfarçar a dor
dos outros, a mesma que ela usava para mostrar aos outros o quanto ela era
forte e agradável. Ela reprimia roda a dor acumulada. Não queria que ninguém a
visse, que ninguém a conhecesse realmente. Afinal, em sua mentalidade, não
havia nada nela que valia a pena ser mostrado.
Era a terceira
vez naquele ano. A terceira vez naquele ano que seu coração foi partido
novamente. Ele estava cansado de ser abandonado por todas as garotas que ele um
dia chegou a conquistar. Estava cansado de ser esse romântico bobo de sempre
que nunca consegue nada pra valer. Era a terceira vez naquele ano que mais uma
garota que ele gostava estava com outro. Chegando em casa, cercado de todos os
amigos, sentou-se e fingiu não se importar com o rompimento de mais um
relacionamento. Todos os amigos gritavam “Agora aquela gostosa está a solta!
Quem será que vai pegar ela primeiro?”, e ele ria, mas na verdade, estava só
fingindo mais uma vez. Estava devastado por dentro, mas nenhum amigo seu podia
saber disso, iriam zoá-lo. “Não se preocupa não, cara! Logo aparece mais alguma
gostosa pra você pegar!”, disse um amigo para ele, enquanto todos os outros
riam. Queria ir embora. Não aguentava ficar mais naquela sua casa cheia de
amigos inúteis. Pegou dinheiro e disse à todos “Eu to saindo. Mas sintam-se
livres para pedirem uma pizza.”, disse, enquanto pensava no quanto os amigos
nunca apreciavam tudo que ele fazia à eles. “Aonde você vai?”, perguntou um dos
amigos. “Vou andar um pouco de skate pra esfriar a cabeça.”, respondeu.
“Esfriar a cabeça? Ih, cara, não esquenta! Mas cá entre nós, pra quem você dá
aquela sua ex gostosa? Pra mim, né?”, e, deste modo, os amigos continuaram
rindo, enquanto ele só mais triste ficava.
Ela
não sabia para onde ir, literalmente havia perdido a cabeça com mais aquele dia
sufocante, onde teve que lidar com todos rindo dela novamente na escola por ser
diferente demais. Ela não aguentava mais aqueles pais que para ela nem ligavam,
a ignoravam. Ela só queria ser escutada por alguém, mas não havia ninguém para
isso. Todos eram iguais, todos eram idiotas. Todos os dias ela estava triste e
ninguém reparava. Séria, tensa e preocupada com tudo ao seu redor, havia
séculos que não se divertia.
Andou
muito e só encontrou um lugar decente para ficar: O parque. Nele, a parte mais
legal sem dúvidas era a rampa dos skatistas, e, com certeza, ela ficaria lá
observando-os.
Sentou-se
num banco enquanto logo quis se esconder. Um menino de sua escola antiga,
totalmente babaca, estava andando de skate em sua frente. Ele era daquele tipo
de cara que seguia tudo o que os amigos diziam. Aquele tipo de cara banal, com
a cabeça fechada que não se interessa por nada além de rir dos outros. Ele ria
dela. Será que ele tinha a visto? “Espero que não”, pensava. Ela não queria ser
vista por ninguém.
Enquanto
andava com o skate, ele ainda estava pensando no porque de ser amigo desses
caras idiotas e do porque dele sempre se dar mal no amor. Ele se sentia um
babaca completo. Para começar, ele era mau com todos os caras diferentes dele
na escola, e sempre estava caçoando de todos pelas suas costas. Ele precisava
mudar, não conseguia suportar mais por um segundo ser ele. Na verdade, nem ele
ele estava sendo, porque, na realidade, ele era algo que nunca havia mostrado a
ninguém. “O que há de errado comigo?”, pensava, enquanto, de repente, avistou
ela. Ela era aquela garota que estudava com ele mas saiu por ter sido zoada
demais. Ela era aquela garota esquisita que ele até mesmo zoou. Ele nunca havia
reparado no quanto ela era bonita. Ele caiu do skate, distraído, ainda olhando
para ela. Levantou-se, arrumou sua camisa de marca, que, na verdade, ele
odiava, e foi em direção dela. “Oi. Você é aquela menina que estudava comigo,
não é?”, disse, tentando ser simpático. “Sim, eu sou.”, ela respondeu, com a
cara emburrada, tentando dar um sorrisinho. “Então, o que você está fazendo
aqui?” “Nada. Só observando.” “Só observando?”, indagou ele “Sim.”, ela
respondeu, friamente. “Olha, me desculpe. Eu sei o quanto eu fui um idiota com
você quando estudávamos juntos, e saiba que gostaria de retirar tudo aquilo de
ruim que disse. Você não é nada disso.”, desculpou-se, assim que reparou o
quanto brava ela ainda aparentava estar. Era verdade, ele realmente havia sido
um otário. “Eu vou te desculpar só porque eu não tenho nada melhor para fazer.
Mas só por isso.”, ela respondeu, com um leve sorriso se abrindo no canto de
sua boca. “Então, disposta a conversar?”, ele disse. Como sempre, ele era muito
comunicativo e, quando estava longe de seus amigos, era sempre aquele
simpático, amigo e inofensivo, que não machucaria nem uma mosca. Ela não pôde
ignorá-lo, e assim, conversaram.
Ela
havia reparado o quanto ele era diferente sem os amigos. O quanto ele era
amigável... A conversa fluiu de um jeito tão bom que ela nem se sentiu
envergonhada. Ele era um cavalheiro. “...E, na verdade, eu odeio essa blusa
aqui. Eu não usaria isso nunca.”, ele resmungou, ao final de uma frase
qualquer. “Então porque a usa?”, simplesmente, ela perguntou. “Porque é...”,
ficou quieto ao reparar na mais pura verdade “Porque é o que os meus amigos
usam.” Pelas expressões confusas dele, ela conseguiu notar o quanto ele queria
mudar mas não sabia nem por onde começar. “Eu vou te ajudar.”, disse, mas,
desta vez, com um grande sorriso. “Você faz assim: Largue todos esses seus
amigos, que, na verdade, nem ligam para você. Não seja igual a eles, você sabe
que não é. Você tem gostos e valores diferentes dos deles, e isso não é ruim.
Não se perca...”, ela não conseguiu continuar ao reparar o quanto ele era lindo
“Como estava dizendo... Não se perca, junte-se àqueles que te respeitem como
você é.”, por fim, respondeu. “Mas a verdade é... Eu não sei quem eu sou.”, ele
confessou, parecendo confuso. “Claro que sabe. Você é tudo aquilo que você faz
quando ninguém está por perto.”, ela disse, fazendo com que todas as dúvidas de
sua cara desaparecessem. “Então meu gênero musical favorito não é eletrônico, e
muito menos rap... É rock! Assim como meu estilo de roupas que não é esse, todo
mauricinho... Eu gosto de usar são roupas casuais, bem básicas, sem nada dessas
marcas e símbolos. Eu gosto é de ser legal com as pessoas, e não de agredi-las...
Eu sou bom, não sou?”, ele perguntou, confuso. “Você é. Por tudo que você me
disse, só pude reparar no quão generoso você é. Você só está dando essa
generosidade às pessoas erradas.”, serenamente, ela respondeu. “É, é
verdade...”, ele refletiu, relembrando de todos os momentos que esteve lá por
seus amigos e suas namoradas, nas nenhum nunca esteve lá por ele. Isso tudo
soava um tanto idiota, mas ela sabia o quanto esse processo era importante para
ele, e, de verdade? Ela se importava. Ele estava se esclarecendo enquanto ela
assistia e ajudava, e isso era o melhor que ela já podia ter feito à alguém que
ela nem gostava... Até agora.
“Mas agora chega de papo. Vem comigo. Você vai
aprender a andar de skate.”, ele disse, passando seu capacete para ela. “Não,
que é isso!”, ela gritou, enquanto ele a empurrava. Já era tarde demais. Quando
ela viu, já estava na rampa com um skate na mão e ele bem atrás dela,
segurando-a e falando tudo que ela deveria fazer.
Deslizando
a rampa com o skate, seus joelhos já estavam todos ralados e o capacete fora do
lugar, mas
ela estava sorrindo enquanto ele gritava “Quase isso, quase isso!” seguindo
todos seus movimentos, logo atrás dela. Ela continuou tentando fazer as
manobras, mas só caia, caia e caia. Estava sangrando desde os pés até as
pernas, mas não estava nem aí. Era a vez dela de sentir a sensação de
liberdade. A vez dela de se sentir aos ventos, divertindo-se, e era exatamente
isso o que aquele momento estava trazendo à ela. “Você está bem?”, ele gritava,
e ela apenas dizia que sim com a cabeça, rindo como uma louca desamparada
enquanto ele dava a mão para ela levantar novamente. Todos os outros ao seu
lado estavam rindo, mas ele não ligava, e, pela primeira vez, ela passou a não
ligar. “Seu primeiro dia de aula foi muito produtivo.”, disse ele, enquanto
reparava em todos os machucados nela, que sorria para ele com os olhos mais
brilhantes do mundo. “Espero que seus pais não pensem que eu sou um drogado que
num momento de raiva te machucou.”, e, novamente, ela riu. “Não se preocupe.
Não verei eles hoje e, na verdade, não sei para onde ir.”, soltou ela, que via
agora suas preocupações voltando. Suas feições logo endureceram, e,
rapidamente, ele reparou e acrescentou: “Não precisa ir pra lugar nenhum. Vamos
ficar juntos por hoje. Você pode ficar lá em casa, não tem ninguém por lá.” Ele
sorriu ao reparar que a seriedade no rosto dela havia sumido de vez quando ele
falou isso. “Muito obrigada”, ela disse num tom de alívio e felicidade. “O que
vamos fazer agora?”, perguntou. “Vou te levar na melhor lanchonete da cidade.”,
ele disse, dando uma piscadela e a segurando-a pelas mãos. “Vamos.”
O dia se seguiu
assim, com os dois indo de lá pra cá, rindo o dia todo, conhecendo tudo um da
vida do outro. Ela nunca havia se sentido tão bem e ele estava encantado por
ela inteiramente. Nunca imaginou que ela poderia ser tudo aquilo, nunca
imaginou o quanto se divertiria perto dela. Ele queria, desesperadamente,
beijá-la.
“Vem aqui.”, ele
disse, já em sua casa, enquanto arrumava o sofá onde ela iria dormir. Sua casa
estava completamente vazia, os pais haviam viajado, e como ela não queria
voltar para sua casa de jeito nenhum, ele achou que não haveriam grandes
problemas em tê-la por perto durante toda a semana. Para falar a verdade, ele
até pensou que haveriam problemas com os pais dela, mas esses nem se
preocuparam em ligar para a filha para saber onde ela estava. Por tanto, ele
decidiu que seria ele quem ficaria com ela, seria ele quem ligaria, de fato,
para ela. Assim que ela chegou, sentou-se ao seu lado no sofá, olhando para
ele. Novamente, ele se via encantado. De algum modo esquisito, ela era
diferente dele, mas era tudo que ele queria. “Você sabe o quanto você é
bonita?”, disse, observando o quanto isso deixava-a envergonhada, com as
bochechas vermelhas. “Na verdade, não sei. Quanto?”, perguntou, com a cabeça
abaixada. “Mais do imaginável.”, respondeu, levantando a cabeça dela pelo queixo
suavemente pelas mãos. Tirou todos os fios de cabelo que estavam sob o seu
rosto, passando-os por trás de sua orelha. Segurou-a pela cintura e a beijou.
Ela se sentiu toda desengonçada, mas algo em sua cabeça dizia que o certo era
passar os braços sobre seu pescoço, e, por tanto, assim o fez. “Você é
estranha, louca, divertida... É tudo o que eu queria.”, disse, enquanto agora a
envolvia com seus braços. A música que estava tocando enquanto se beijavam no
som da casa era a música favorita dele, chamada “Live and let die”, do Guns N’
Roses.
A
semana se seguiu assim, e ela não sabia suportar esse sentimento, nunca havia o
sentido de modo tão forte. Ela o amava. O conhecia fazia mais de um ano, mas
foi dessa vez que de vez se apaixonou. Foi dessa vez que ela o conheceu de
verdade. Achava que ele era só mais um garoto igual a todos os outros, mas, na
verdade, ele era o único que fez com que ela se sentisse importante e especial,
por mais brega que isso soasse em sua cabeça que se negava constantemente ao
amor. Ela estava amando, e não sabia o que fazer, não sabia como agir. Mas ele
estava guiando-a como um cão guia seu cego dono. Ele era dela, e ela era dele.
Ela nunca esteve mais feliz.
Ele não conseguia
parar de pensar no quanto o toque dela o fazia feliz, no quanto ela fazia com
que ele se sentisse único. Todos em sua vida nunca o viram como um cara
diferente. Apenas ela e somente ela pôde reparar nisso. Ele estava loucamente
apaixonado por absolutamente tudo nela. Todos os defeitos e qualidades. Por
algum motivo, ele sentia vontade de cuidar dela. Sentia vontade de fazer com
que ela se sentisse amada. Talvez estivesse pensando assim depois de tudo que
ela contou sobre sua vida à ele. É, ele queria fazê-la se sentir bem consigo
mesma. Ele nunca havia notado nela até ela se manifestar para ele como ela
havia feito essa semana, e foi a melhor coisa que já pôde ter acontecido. Ele
nunca achou que duas pessoas com vidas tão diferentes pudessem ser, na verdade,
tão parecidas. Agora eles estavam juntos. Era isso que ele queria.
E era isso que
ela queria. Ela queria apenas abraçá-lo e não soltá-lo mais. Fazer com que ele
se esquecesse de todas as outras que só fizeram mal à ele. Ela queria
agradecê-lo por tamanha felicidade.
Numa
noite, meses seguinte, os dois deitaram-se juntos, e, numa hora, pararam para
refletir em tudo que havia acontecido em tão pouco tempo. Era engraçado como
ele fazia com ela se divertisse sem ao menos saber de tão séria que antes ela
era todos os dias. Era engraçado o como ela fazia com que ele se sentisse único
sem ao menos saber, de princípio, todos seus problemas. Era engraçado como os
dois se completavam, mesmo aparentando ser tão diferentes um do outro. Era
engraçado o quanto eles eram parecidos, na verdade. No começo, os dois acabaram
se ajudando sem saber nada sobre o outro. Ele fez com que ela se sentisse
relaxada, e ela fez com que ele se sentisse diferente. No final das contas, ele
ainda não sabia, mas a verdade era ter conhecido ele havia sido o melhor
acontecimento da vida dela. E, do mesmo jeito, ela também não sabia que a
verdade era que, para ele, não houve coisa melhor do que ter a companhia dela
durante todos esses meses. Ela tinha sido a melhor coisa que havia acontecido
na vida dele, e vice-versa. Foi ele quem proporcionou a maior diversão à ela. Foi
ela quem proporcionou os maiores aprendizados à ele. Ele era aquele que havia
ensinado à ela o que era diversão e ela era aquela que havia ensinado à ele o
que era individualidade. Mas, fora a tudo isso, os dois haviam se ensinado,
principalmente, o que era o amor. Um sentia-o demais, e a outra, nem fazia ideia
do que era.
“É
engraçado o como a vida está sempre pronta para nos surpreender. É engraçado o
como eu nunca imaginei que estaria com você, e agora, estou. É engraçado como
existem tantas coisas boas que o mundo tem à nos oferecer, e é mais engraçado
ainda o como nos negamos a enxergar a verdade. E a verdade é essa. Aqui e
agora. Nós dois. Quem diria?”, ela disse com suas sábias palavras, enquanto ele
a envolvia com seus protetores braços.
Luíza Buendia.
Luíza Buendia.

